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TOGI - Capítulo 14

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"TOGI"é uma web-série original, da autoria de Ricardo Reis, que conta a história de Tobias, Otávia, Guilherme, Ivã e Ivo,  seis estudantes de uma universidade lisboeta. Todos eles são bem diferentes, mas têm algo em comum: as suas escolhas irão mudar para sempre as suas vidas.
[AINDA NÃO LESTE O CAPÍTULO 13? CLICA AQUI]

CAPITULO 14
GUSTAVO

Tal como estipulado pela judiciária, Gustavo compareceu no dia seguinte a Guilherme para prestar algumas declarações sobre o que tinha acontecido na fatídica noite de dezassete de Setembro de dois mil e seis. Também tinha os dois inspectores da judiciária que ouviram Guilherme e encontrava-se exactamente na mesma sala. Gustavo estava com um sorriso fechado, como sempre estava desde que lhe acontecera aquela tragédia. Foi bastante difícil para ele ter de modificar a sua rotina depois de ficar sem mãos e sem língua. Foi quando os inspectores iniciaram o seu interrogatório que a sua mente vagueou para o passado.

DEZASSETE DE SETEMBRO DE DOIS MIL E SEIS

Gustavo e Guilherme estacionaram o carro em Sintra para subirem a serra a pé. Traziam consigo umas quantas garrafas de cerveja e outras bebidas. A noite parecia ir ser animada. Lilia já os esperava um pouco mais à frente, mesmo em frente ao Palácio de Sintra. Trazia uma mochila onde estavam alguns objectos que iam usar nos próximos dias no peddy paper. Depois de se cumprimentarem foram os três rumo ao alto da serra, cada um com uma garrafa de cerveja na mão e quando uma acabava tiravam outra do saco que Guilherme trazia.

Aquele ambiente místico que se vivia à noite no alto da serra de Sintra causava alguns arrepios a Lilia, pelo menos era essa a impressão que Gustavo tinha. Já Guilherme, esse estava já tão alegre que nada lhe metia medo.

- Se visses aquele fantasma da curta aposto que te ficavas a rir! – Troçou Gustavo do estado em que Guilherme se encontrava ainda no inicio da noite.

Embora o peddy paper se fosse realizar no centro de Lisboa, Gustavo, Guilherme e Lilia gostavam de aventuras e sempre que pudessem arranjavam uma forma de se meter numa, por isso escolheram o ambiente assombroso que a serra de Sintra pode ter durante a noite.

Os três meteram-se pelo meio das árvores, Guilherme à frente e os outros dois mesmo atrás dele. Foi então que a camisola de manga comprida de Guilherme ficou presa numa árvore e quando ele andou um bocado mais rasgou-se. Ele ainda fez de tudo para que eles não vissem mas era tarde demais. As suas marcas estavam à vista deles dois, era impossível esconder.

- Meu quem é que te fez isso? Quem é que te fez uma coisa dessas? – Perguntou Gustavo ao ver as cicatrizes que Guilherme apresentava nas costas.

Como estava bêbado Guilherme soltou uma gargalhada. Depois disse:

- Aquele que está a arder no inferno! O cabrão do meu tio.

- E como sabes que ele está a arder no inferno? – Questionou Lilia.

- Porque o sei! Porque certifiquei-me que ele não ficava nesta terra para fazer-me sofrer nunca mais. Ele sempre me culpou pela morte dos meus pais dizia que se a minha mão não ficasse grávida eles ainda podiam estar cá. Era um bêbado alucinado! – Guilherme começou a chorar e a soluçar como uma criança. – Mas na primeira oportunidade que tive, um ano antes de vir para a faculdade fiz o que tinha de ser feito. Aproveitei o facto de o meu primo estar em Lisboa a acabar a sua tese de mestrado e a minha tia estar na missa para preparar uma bebida especial para o meu tio que ainda estava de ressaca da noite anterior. Só nas ressacas é que aquele filho da mãe me tratava bem. Então aproveitei e meti-lhe um veneno no copo, algo que lhe provocasse uma espécie de ataque ou qualquer coisa. Algo que não se conseguisse ver na autópsia. Tive medo que mostrasse na autópsia que ele tinha sido envenenado mas por milagre isso passou-lhes ao lado, a pessoa que me vendeu era de confiança mas podia dar errado. Então vim para a faculdade e deixei a velha sozinha já que o meu primo veio viver para Lisboa pouco tempo depois.

- Tu mataste um monstro mas ao fazer o que tu fizeste tu tornaste-te igual ou pior! – Lilia estava horrorizada com a confissão de Guilherme queria desaparecer dali.

Foi então que Lilia começou a fugir, a correr por entre os pinheiros e Guilherme foi atrás dela. Ele corria mais que ela e depressa a apanhou. Pegou num pequeno tronco de árvore que se encontrava no chão e bateu-lhe na cabeça, fazendo-a perder os sentidos e cair no chão.

Gustavo correu para junto deles. Baixou-se para ver se Lilia tinha pulsação. Ela tinha mas Gustavo disse que não para a conseguir salvar.

- O que fizeste meu? Deves ter acertado em cheio na nuca! Tens mais uma morte, mais sangue nas tuas mãos. 

- Desfaz-te dela! Desfaz-te dela, rápido. – Guilherme estava perdido, não sabia o que fazer. – Se ela estiver viva mata-a, só assim saberei que estás do meu lado e nada te vai acontecer! Ela ia contar isto a toda a gente, era o meu fim.

- Ela era tua amiga!

- Cala-te Gustavo! Leva-a daqui, rápido, antes que apareça alguém e veja isto!

E Gustavo arrastou Lilia até a um ponto central da serra onde passava uma estrada e se localizava uma casa abandonada. Depois pegou no telemóvel dela e procurou o número que estava gravado com a palavra Amor. Escreveu uma mensagem com a sua localização e deixou-a ali, na esperança que o namorado a fosse buscar. A esperança essa era a ultima a morrer, já ele tinha medo do que lhe podia acontecer quando regressasse para perto de Guilherme, mas não havia como fugir, estava sozinho com ele na serra de Sintra e não tinha como voltar já que tinham vindo no carro do amigo.

Encheu-se de coragem e regressou para perto de Guilherme. Este esperava-o um pouco nervoso, tentando esboçar um pequeno sorriso mas os seus lábios estavam a tremer. Aproximou-se dele e disse-lhe:

- Fizeste o melhor! Assim sei em quem posso confiar. És um verdadeiro amigo. E por essa razão tens de ser o mais fiel possível. – Ao dizer aquelas palavras Guilherme abriu a mão e atirou terra para os olhos de Gustavo. 

Gustavo ficou sem conseguir ver nada mas sentiu algo embater na sua nuca. Depois disso só se lembra de acordar no hospital e levantar os braços e ver que as suas mãos estavam cortadas. Tentou falar, gritar mas nenhum som saia da sua boca. Onde antes se encontrava a sua língua agora era um enorme vazio. As lágrimas correram-lhe o rosto ao ter a percepção da sua situação. Eu espero que nada aconteça à Lilia, se aquele psicopata souber que ela está viva vai matá-la, pensava enquanto tentava parar as lágrimas que caiam pelo seu rosto, mas sem sucesso.

Guilherme foi a sua primeira visita. Vinha a chorar. Brilhante actor, pensava enquanto sentia uma raiva e uma mágoa dentro de si impossível de explicar. Guilherme não vinha sozinho, vinha acompanhado com mais dois homens que lhe pareceu serem dois polícias.

- Veja como ela o deixou! Um crime completamente horrendo. Se não tivesse sido rápido a trazê-lo para cá ele podia ter morrido. – Dizia Guilherme aos dois agentes enquanto Gustavo olhava para eles com dor. – Olhem só o olhar revoltado deste pobre coitado. Nunca pensei ver o meu melhor amigo sem mãos e língua, triste cenário este. 

Gustavo ficou completamente abismado quando viu Guilherme a soluçar. Parecia mesmo acreditar na sua própria mentira. Quando os agentes da autoridade saíram do quarto do hospital onde Gustavo estava internado, Guilherme aproximou-se dele.

- Não encontraram a Lilia, ela desapareceu. Mas tu disseste que ela estava morta! – Guilherme parecia bastante sereno como sempre. – Portanto das duas uma, ou escondeste aquele corpo tão bem que é impossível alguém encontrar ou então ela conseguiu fugir! Espero que seja mais a primeira hipótese porque se for a segunda estás completamente tramado. Aliás seja como for tu não poderás dizer nada. Se quiseres escrever alguma coisa, só se conseguires aprender a escrever com os dedos dos pés e falar para ti também é coisa do passado. O que se passou naquela noite vai ficar para sempre lá, nunca ninguém vai saber, tenho o meu segredo guardado e não vão ser vocês que vão destruir-me a vida. Mas seremos amigos! Não quero que as pessoas comecem a desconfiar, quero que sejamos unha com carne como antes disto acontecer, porque se não perderás mais coisas do que o que perdeste ontem à noite!

ACTUALIDADE

Gustavo, apesar de todas as suas limitações, tentou responder o melhor que conseguia às perguntas colocadas pelos dois inspectores da judiciária. Apenas acenava afirmativamente ou negativamente com a cabeça para que pudesse ser perceptível. O interrogatório apenas durou meia hora e foi pouco conclusivo para as autoridades.

- Acho que ele podia dizer mais do que conseguiu. – Disse um dos inspectores quando ele abandonou a sala.

- Brilhante conclusão a que chegaste! – Ironizou o outro.

 
Não perca o 15º episódio, na próxima terça-feira, para ler aqui no Fantastic e na página oficial do projeto, em www.facebook.com/pages/TOGI/277175702491216


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