
CAPTULO 38
OTÁVIA
Os dias de Otávia pareciam anos. Era uma tortura para ela estar trancada naquela sua cela fria e suja com uma companheira extremamente violenta que a assustava só ao olhar para ela. Queria sair dali mas para sair só havia uma forma e foi essa a razão porque pediu a Tobias que Ivã se deslocasse ao estabelecimento prisional para a visitar. Estava completamente desesperada, não podia continuar naquele sítio nem mais um dia.
Foi numa tarde chuvosa que Ivã apareceu para visitá-la. Demorou uma semana a aparecer, mas Otávia ficou feliz de o ver mesmo tendo demorado todo esse tempo. Para ela, ele era a sua única salvação naquele momento, por isso, mesmo antes das saudações e questões habituais, Otávia disse:
- Tens de a convencer Ivã, tens de a convencer a vir à polícia e apresentar a queixa contra o Guilherme, eu não quero mais estar aqui!
- Fala mais baixo Otávia! Tens de ter calma, tudo se vai resolver. E como podes ter tanta certeza que foi o Guilherme que matou o primo?
- Ivã ele é doente, fez aquilo tudo só para se vingar de mim. E prepara-te porque ele já conseguiu fazer o que queria fazer comigo, tu e ela serão os próximos, tenham cuidado vocês os dois, não sabemos bem com quem estamos a lidar.
- Eu sei muito bem com quem estamos a lidar! Estamos a lidar com um psicopata que não olha a meios para atingir os seus objectivos. Nós sabemos que ele é capaz de matar só para proteger os seus segredos, mas eu consigo lidar com ele.
- Ivã, ele está completamente desesperado! Ele conseguiu matar o próprio primo para se vingar de mim. Ele é um homem completamente doente. Ele vai vingar-se de ti da mesma forma que se vingou de mim. Nem quero imaginar se ele encontra a Lilia, tens de ter o maior cuidado agora que ele está naquele estado, ele não vai descansar enquanto não tiver a certeza que o seu segredo está bem guardado. Ele não se importa de eliminar alguém se o tiver de fazer. Se a Lilia não disser nada podemos estar os três em muitos maus lençóis!
- A Lilia em oito anos nunca quis dizer nada a ninguém, achas que seria agora que queria vir a correr contar à polícia? Por mim esta história não tinha chegado a atingir estas proporções mas ela tem medo que ele faça mal a ela e há família.
- Mas ele está a fazer mal a muita gente na mesma. Ela não pode ficar parada enquanto tudo se encontra a desmoronar à sua volta!
- Eu vou tentar convencê-la mas não vai ser fácil Otávia! Acho que terás de aguentar aqui mais um pouco. Tu não o mataste e a verdade terá de vir ao de cima.
- Mas enquanto não vem eu tenho de viver este inferno! – Os olhos de Otávia encheram-se de lágrimas. – Estou desesperada Ivã. Não quero passar aqui nem mais um dia, quero que este pesadelo termine. Às vezes dou por mim a beliscar-me na cela só para ter a certeza de que isto não é tudo um pesadelo e que assim que acordar tudo irá passar.
- Tens de ser forte Otávia, não podes ir abaixo. Tudo isto vai terminar, eu prometo-te.
- Quantas mais pessoas terão de morrer para a Lilia decidir vir contar tudo à polícia. Ele vai encontrá-la Ivã e prevejo uma tragédia quando isso acontecer. – Otávia levantou-se. – Pensa nisso! – E saiu da sala de visitas.
Quando estava a chegar à sua cela um polícia chegou perto dela e disse-lhe:
- Hoje está muito requisitada senhora Otávia, tem mais uma visita.
Otávia ficou surpreendida, não esperava que ninguém a viesse ver. Tudo o que queria era ir para o seu canto, chorar enquanto lia um livro que os seus pais trouxeram para ela tentar queimar o tempo que teimava em não passar. Em vez disso teve de voltar para a sala de visitas para receber o seu visitante mistério. Enquanto caminhava para lá olhou o céu pelo corredor. Estava negro, tão negro como o seu estado de espírito naquela altura. Mas o seu ânimo ficou ainda pior quando chegou à sala e viu que quem a tinha ido visitar era nada mais nada menos que Guilherme.
- Então Otávia! Não se fala de outra coisa pela faculdade e como tal achei que devia vir até aqui para te dar o meu … bem, o meu apoio.
- Meu grande cabrão. Meu grande filho da…
- Então Otávia, estamos a perder as boas maneiras, mas isso já deve ser influências das tuas novas amigas! Mas não precisas de ser tão brejeira com aqueles que te vêm visitar.
- Ainda vieste gozar-me. Como és capaz de fazer tudo aquilo sem sentires remorsos. Como?
- O que fiz eu Otávia! Tu é que me deixas sem primo e eu é que sou o culpado?
- Não te faças de sonso! Eu disse à polícia para te investigar, eu disse-lhes que tu eras primo dele.
- E? O que tem eu ser primo do falecido, matei-o por isso? Otávia tu escolheste o teu caminho e agora estás aqui! Tu obrigaste-me a ter esta postura quando compactuaste com o santinho do Ivã. Devias ter deixado de te meter em assuntos que não te dizem respeito a partir do momento em que descobriste toda a verdade sobre o esquema em que estavas metida, mas não, decidiste que devias destruir aquilo pondo o Fernando em risco e o Ivã logo que tomou conhecimento de tudo lá correu para conseguir auxílio para conseguir destruir-me. Mas tudo saiu furado e estás aqui desamparada. Mas não te preocupes, não vais estar sozinha. Dentro em breve vais ter mais um companheiro.
- O que queres dizer com isso?
- Querida Otávia, quando lês um livro não queres que te contem logo o final pois não? Tem calma, a seu tempo saberás. Agora tenho de ir, ainda tenho muita coisa para fazer hoje, além de ti mais duas pessoas me feriram o coração com as suas atitudes egoístas e como seria de esperar vou dar-lhes uma lição. Ninguém se fica a rir de mim Otávia e eu estou a ganhar-vos e nenhum de vocês sabe como me vencer.
A Lilia é a chave, só ela nos pode salvar, pensou só para si sem dizer nada a Guilherme. Ainda tinha esperança que a rapariga se dirigisse à polícia para contar tudo aquilo que sabia sobre aquele criminoso que fazia de tudo para que os seus segredos não fossem descobertos.
Quando Guilherme se foi embora Otávia seguiu finalmente para a sua cela. Odiava aquilo mas se Ivã conseguisse fazer com que Lilia se dirigisse à polícia. Era isso que ainda lhe dava alguma esperança, esperança essa que não a deixava desistir de tudo aquilo em que ainda acreditava.